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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Marino e Vera falam da família, dos 30 anos de casamento e do desejo de estar sempre juntos

O casal formado pelos empresários Marino e Vera, contando desde o início do namoro até hoje, estão juntos há 37 anos, sendo que casados faz 29, completados em Julho. Abaixo nos dizem quão importante é ter paciência e tolerância, para construir um amor duradouro.
Marino e Vera: casais sábios constroem juntos uma vida feliz
Nova Voz On Line – Como foi que vocês se conheceram?
Vera - Marino trabalhava próximo à rua em que eu morava. Já sabia de seu interesse. Mas o primeiro encontro aconteceu em um dos ensaios de carnaval da Escola de Samba Verde e Rosa. No ano de 1981, eu estava me preparando para sair na Comissão de Frente da Escola.
Marino – Como a Vera disse, eu já estava de olho. Sabia que gostava dela, mas faltava um jeito de me aproximar.

Nova Voz On Line – Então como surgiu o primeiro encontro?
Vera – Eu era muito tímida. Tinha só quinze anos. Uma amiga comum veio de Niterói, passar o carnaval por aqui, e deu aquele “empurrãozinho” valioso (risos), nos apresentando.
Marino – E lá se vão 38 anos, desde que começamos a namorar. Sem dúvidas, foi à melhor coisa que já me aconteceu. De nós dois, vieram os três filhos, nossos grandes tesouros. E toda uma história juntos.

Nova Voz On Line – Vocês namoraram bastante tempo, antes de se casarem. Um namoro longo torna mais provável que o casamento dê certo?
Vera - Namoramos durante oito anos, primeiro porque éramos muito novos, e precisávamos amadurecer, tendo também em perspectiva nossas carreiras profissionais. Almejávamos uma estabilidade financeira.
Marino - Quanto ao tempo de namoro, acredito que contribui para que o casal se conheça melhor. Mas para que o relacionamento seja duradouro, fundamental é compartilhar objetivos, estilos de vida e interesses comuns. Ou seja, é preciso que haja respeito, amor e cumplicidade. Sem esses elementos, se torna impossível uma boa convivência.

Nova Voz On Line - A vida em comum de vocês é rica de experiências. Há os filhos, a empresa Ki Madeira; a Vera tem a carreira profissional no magistério, que nunca abandonou. Enfrentar juntos, tantos desafios, une mais o casal?
Vera - Como o Marino disse, os filhos são nosso maior tesouro. Por eles lutamos com determinação. São bênçãos de Deus. Nossas conquistas são fruto de trabalho e dedicação, buscando poder dar conforto e segurança, não só a nossa família. Mas a de todos que estiveram e estão conosco, trabalhando.
Marino – Os desafios que a vida impõe são superados com o apoio de um ao outro. Isto nos une e aproxima. Conversamos bastante, sobre o que fazer no dia a dia, seja na família, na empresa e em qualquer assunto.

Nova Voz On Line – No que os filhos transformam o amor do casal?
Vera - O nascimento de um filho é um acontecimento de grande impacto no relacionamento. Há o aumento de conflitos, insegurança, ou seja, é a prova de fogo para o casamento, pois é uma responsabilidade muito grande a tarefa de educar. É necessário que seja uma opção consciente e responsável, porque a educação dos filhos não é tarefa fácil.
Marino – Os filhos nos perpetuam. Com a chegada deles, passamos a valorizar mais nossos pais. Talvez seja possível dizer que o casamento de verdade, só comece com o nascimento deles. Meus filhos são adultos, pessoas ótimas, em quem confio e amo. Mas ainda sinto o dever de protegê-los, da mesma forma quando os segurei pela primeira vez, em meus braços.

Nova Voz On Line - Muitas relações hoje em dia têm ritmo frenético. Entre o primeiro dia de namoro e o divórcio, o espaço de tempo chega a meros um ano. Por que acreditam que isto acontece?
Vera - No dia 29 de julho completaremos 30 anos casados. Realmente hoje essa complexa relação é vista de maneira bem diferente. Fomos educados valorizando o casamento. Atualmente, alguns casais, não exercitam a tolerância e a paciência, e ao primeiro sinal de crise, se separam. É uma pena, porque existe uma qualidade, uma sensação, enfim, um amor, que só consegue alcançar, quem continua junto pela vida, como eu e o Marino.
Marino – A meu ver é preciso exercitar a tolerância, pois em toda união existe divergência, que só com amor, maturidade e boa vontade, são superadas. É preciso aprender a conquistar a parceira com tolerância, se não o casamento fica vulnerável e desmorona.

Nova Voz On Line - Notamos que estão sempre juntos, nos eventos sociais. Ser um casal é desenvolver o gosto de estar, um ao lado do outro, nas horas cruciais, seja de superação, seja de lazer e divertimento?
Vera - Realmente é um hábito que cultivamos, desde o início do nosso casamento, que só aumenta nossa cumplicidade e a segurança que temos um no outro.
Marino – Concordo! Quando dizem que ser um casal é gostar de estar sempre juntos, em todas as situações é fazer como fazemos, buscando estar próximos na família, nos eventos sociais e até no trabalho (risos). Saber que ela está ali, perto de mim, me deixa tranquilo e feliz.

Nova Voz On Line – Namorados, noivos, marido e mulher, sempre dividindo os mais importantes momentos da vida. Neste dia dos namorados, o que gostariam de dizer um ao outro, deixando de exemplo aos leitores e leitoras, que sonham encontrar um parceiro / parceira, para vida toda?
Vera – Procuramos aplicar em nossas vidas, a máxima de Lilian Tonet, que diz: “as pessoas entram em nossas vidas por acaso, mas não é por acaso que elas permanecem”. Que saibamos despertar em nosso companheiro, o prazer e a alegria de nossa companhia. Vale à pena acreditar no amor e lutar por ele. Eu descobri isto com você, Marino, meu marido e meu amor.
Marino - Eu agradeço a Deus por ter colocado uma pessoa como você Vera, na minha vida. Por compartilhar as maiores alegrias e dividir as tristezas. Por me ajudar a superar as dificuldades. Por caminhar ao meu lado. E por tudo isto, você é o grande amor da minha vida. Minha eterna namorada. Feliz Dia dos Namorados.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Pastor Balnires Jr. Fala sobre o papel da religião

Confira nosso bate papo com o Ministro Presbiteriano Balnires Júnior. Ele é formado em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana, com especialização em Aconselhamento Pastoral Familiar. É Capelão do Hospital Semiu, na Vila da Penha. E, desde 2015, Pastor Efetivo da Igreja Presbiteriana de Vila Valqueire, no Rio de Janeiro. Balnires tem família radicada em Portela, Terceiro Distrito de Itaocara.
No Dia Nacional de combate à intolerância religiosa, o Pastor Balnires Júnior, postou essa foto com os seguintes dizeres: "um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros". (Jo 13.34)
Nova Voz On Line - Num tempo de tanta intransigência e de tanta burrice no Mundo, qual deve ser o papel da religião?
Pastor Balnires Jr.- O de criar espaços e mecanismos para a construção de um diálogo respeitoso e fraterno dos temas que incidem diretamente na vida das pessoas. É preciso que alguém diga que as nossas opções não se resumem a nos identificarmos como “coxinhas” ou “mortadelas”. O planeta se depara com a maior crise humanitária da história. Só no ano passado, segundo relatório da ONU, mais de 65 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar em todo o mundo, sendo que a metade do número total dos refugiados são crianças.

Nova Voz On Line – E o Brasil?
Pastor Balnires Jr. - Enfrentamos um delicado momento de crise econômica, política e social, onde a corrupção parece ter tomado conta de todas as instituições e sepultado a República. Nesse contexto, as religiões, pela diversidade que possuem, podem exercer importante papel como instrumento de conciliação e mediação, em dias de crescente confronto, onde gritos e empurrões tomam o lugar da palavra.

Nova Voz On Line - Observo que às vezes é possível encontrar duas pessoas que frequentam a mesma Igreja, sentam lado a lado, ouvindo a mesma palavra, mas, mesmo assim, uma usa o que ouviu de modo intransigente, como justificativa para o próprio preconceito e discriminação. E a outra aplica o ensinamento de maneira fraterna, buscando fazer o bem para todos, no dia a dia, através do que aprendeu. Gostaria que teorizasse sobre o porquê disto, se achar que estou certo.

Pastor Balnires Jr. - Sua observação é pertinente, pois dentro de cada religião é possível vivenciar a espiritualidade de diversas maneiras. Quando falamos de religião, nos referimos à maneira como o ser humano organiza e vivencia sua experiência com o metafísico. Ou seja, aquilo que transcende a natureza física das coisas. Já a Espiritualidade se referente às virtudes do espírito: amor, compaixão, solidariedade, generosidade, perdão e justiça.

Alegria dos membros da Igreja Presbiteriana pastoreada por Balnires Jr.
Pastor Balnires - Quem ama o outro não quer dominá-lo. Quem ama o outro não insufla guerra contra o outro, mesmo que este tenha uma prática religiosa diferente da sua. O reino de Deus não é o reino dos conflitos e das guerras que produz morte. Ao contrário, o reino de Deus é o ambiente da reconciliação e da paz, onde todos buscam o bem comum e não apenas a satisfação dos interesses particulares.

Nova Voz On Line - Houve um episódio na cidade do Rio de Janeiro, não faz muito tempo, quando uma religião de origem africana, teve seu terreiro desrespeitado, inclusive com objetos religiosos que cultuam quebrados. Nesse momento, o senhor, como Pastor, buscou estar ao lado destes religiosos, marchando em defesa da tolerância. Pode nos contar um pouco?
Pastor Balnires Jr. - Foi um ato em resposta a mais um episódio de intolerância religiosa contra religiões afro-brasileiras. O caso ganhou destaque da imprensa na época, e envolveu diretamente uma menina chamada Kailane Campos, que foi atingida por uma pedra, quando voltava para casa, na companhia de um grupo de oito religiosos, vestidos com trajes brancos do Candomblé. Naquela ocasião, a Primeira Igreja Batista da Vila da Penha, em um gesto de solidariedade, fechou as portas do seu templo, e levou toda a sua membresia para a praça do bairro, em um encontro que reuniu diversas religiões, com uma grande representatividade de cristãos evangélicos. O tema foi muito sugestivo: “Deus ama você igualzinho ama a mim”. A nossa palavra naquele dia teve início com um pedido sincero de desculpas, além da manifestação do nosso veemente repúdio ao crime cometido. Afirmamos também que mais do que tolerância, é preciso respeito. Intolerância religiosa é crime e fere a dignidade humana.

Nova Voz On Line – A busca do diálogo entre os seres humanos, sem gritos, nem posições ideológicas fechadas, é a melhor alternativa para vencermos os conflitos que cada dia estão mais próximos dos nossos lares?

Pastor Balnires Jr. - Acredito que só venceremos esses conflitos se insistirmos na busca do diálogo. Hoje, dialogar é resistir à lógica do confronto. Basta acessar as redes sociais para constatarmos que diálogo e mediação são experiências raras. Vivemos momentos de muito confronto. Vivemos tempos de extrema polarização religiosa e política. E é neste cenário que crescem assustadoramente os gestos de intolerância, agressividade e violência.
O diálogo é uma ferramenta que o Pastor Balnires considera fundamental na construção de um Mundo Melhor
Nova Voz On Line – Pode explicar melhor?
Pastor Balnires Jr. - No cristianismo, por exemplo, essa espiritualidade pode ser vivenciada de uma forma Católica Romana, Ortodoxa ou Protestante. E em cada uma dessas formas, existem ramificações variadas. Uma coisa é a Renovação Carismática Católica, outra o pensamento tradicionalista. A primeira tem sua origem no Movimento Carismático da Igreja Episcopal Protestante americana, dentro de um pensamento ecumênico, porém mantendo os dogmas do Catolicismo Romano; o outro surge com críticas às mudanças associadas às decisões do Concílio Vaticano II. No protestantismo também. Um é o cristianismo de Santo Agostinho, Tomás de Aquino e dos célebres reformadores Martinho Lutero e João Calvino; outro o cristianismo do pentecostalismo e do neo-pentecostalismo. Portanto quando dizemos qual é a nossa religião sugerimos alguma coisa, mas não dizemos muito a respeito de nossa espiritualidade. Certa vez ouvi alguém dizer que é mais fácil encontrar uma pessoa religiosa, do que um espírito livre e capaz de amar.

Nova Voz On Line – Pensando no que estudei sobre a vida de Jesus Cristo, concluo que a postura dele foi estar ao lado das pessoas comuns, enfrentando junto com elas, as dificuldades que tinham no cotidiano. Por que, ao longo da história, muitas vezes o cristianismo parece ter sido sequestrado pelos poderosos e seus princípios distorcidos, para manipular os seres humanos em proveito destes grupos?
Pastor Balnires Jr. - Gosto de separar o Cristianismo, ou seja, a religião, do Evangelho, pois quanto mais nos debruçamos sobre o Cristo dos Evangelhos, mais constatamos a diferença entre o Nazareno e o Jesus Gospel, anunciado por muitos tele pastores. Este último é aquele que está sempre a postos para satisfazer vontades e atender as necessidades humanas; enquanto o primeiro é o que abriu mão da própria vontade, considerou os outros superiores a si mesmo, serviu em vez de ser servido. Lavou os pés dos outros, no lugar de ter os pés lavados, e foi acusado pelos líderes religiosos de seu tempo, de ser amigo dos pecadores, de comer com publicanos e conversar com prostitutas.

Nova Voz On Line – Parece que tinha grande compreensão do tormento da alma humana.
Pastor Balnires Jr. - Jesus Cristo sempre agiu com compaixão para com os pobres, os mais sofridos e os mais necessitados. Durante seu ministério advertiu os discípulos sobre o cuidado com os menores, os pequeninos. Não encontraremos na narrativa bíblica nenhuma ação, gesto, palavra ou mesmo o silêncio de Jesus a favor dos grupos poderosos do seu tempo. Aliás, foram estes, os poderosos, que tramaram a sua morte.

Nova Voz On Line - Pela fé e o conhecimento que você tem, acha que se Jesus estivesse vivo, defenderia bandeiras como a pena de morte e insuflaria seus crentes numa guerra contra outras religiões, buscando uma dominação mundial cristã?
Pastor Balnires Jr. - Jesus veio para anunciar o Reino de Deus. O reino de Deus é o reino da vida! Um reino que não indica um território, âmbito ou época, mas um reino gerador de felicidade e justiça eterna, por isso o novo mandamento: “Amem uns aos outros. Assim como eu vos amei, vocês devem amar uns aos outros.” É interessante que um pouco depois, Paulo, o apóstolo, escrevendo aos Romanos vai concluir “que o amor cumpre todas as exigências da lei de Deus”.

Nova Voz On Line – O amor que anda tão esquecido nos discursos seculares e religiosos.
Nova Voz On Line – As religiões e os religiosos responsáveis têm então papel fundamental a ser exercido?
Pastor Balnires Jr. - Por isso falei anteriormente no uso da religião como instrumento de moderação de conflitos. Nelson Mandela, grande líder sul-africano, tem uma frase muito interessante, que muito nos ensina: “ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, ou por sua origem, ou sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

Nova Voz On Line - Nos dá muita esperança ter pessoas com seu bom coração e inteligência liderando Igrejas e religiões importantes. Para construir a sociedade em que todos querem viver, é necessário superar as diferenças e crenças que os seres humanos possuem e trabalhar juntos na edificação de um Mundo de paz.
Pastor Balnires Jr. - Sobre essa questão, a bíblia apresenta-nos a seguinte recomendação: “segui a paz com todos...”. Não é segui a paz com quem professa a mesma fé que você, ou torce pelo mesmo time de futebol, ou tem a mesma visão política. Segue a paz como alguém que busca a harmonia, como alguém que tem um espírito pacífico. Os relacionamentos humanos melhoram quando nos propomos a viver dessa maneira. Você pode, assim como eu, professar a sua fé, ter as suas convicções, até mesmo compartilhar com os outros a sua crença, mas de uma forma educada, respeitosa e fraterna.

Nova Voz On Line - Na fã page do Facebook da Igreja que pastoreia - Presbiteriana da Vila Valqueire - tem no espaço principal o seguinte aviso: PROIBIDA ENTRADA DE PESSOAS PERFEITAS. Pode nos explicar o porquê?

Pastor Balnires Jr. - Essa é uma frase provocativa que serve como um convite à reflexão individual. Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão luterano, membro da resistência alemã antinazista e fundador da Igreja Confessante, ala da igreja evangélica contrária à política nazista, certa vez escreveu: “A desilusão com a igreja local é algo bom, porque destrói nossas falsas expectativas de perfeição. Quanto mais rápido renunciarmos à ilusão de que uma igreja deve ser perfeita para que a amemos, mais rápido deixaremos de fingir e admitiremos que somos todos imperfeitos e precisamos da graça. Esse é o início da verdadeira comunidade.” Apesar da recomendação de Jesus para que sejamos perfeitos como perfeito é o Pai celestial, compreendemos que essa perfeição não é um status quo ao qual se chega, mas um caminho do qual nunca se desiste.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Dr. Sebastião Kleber da Rocha Leite: Uma vida rica em acontecimentos, exemplo para a nova geração

Aos 83 anos, o advogado e jornalista, Dr. Sebastião Kleber da Rocha Leite, é um dos maiores expoentes da cultura em toda história de Itaocara. Sua trajetória começa em Laranjeiras (atual Laranjais), nos anos de 1930, passa pelo Rio de Janeiro, Buenos Aires, Córdoba, Havana, Nova Iorque e Boston. Presidente da Academia Itaocarense de Letras (AIL), fundador da premiada revista BALI, exerceu ainda cargos na Prefeitura, e funções na sociedade civil, como a Presidência da Cooperativa de Motoristas. Leia mais sobre esse homem que é exemplo às novas gerações.
Dr. Sebastião Kleber da Rocha Leite, recebendo o Jornalista Ronald Thompson em sua casa, na época da publicação dessa matéria em 2014, agora republicada

Nova Voz ONLINE – Estamos próximos ao Dia dos Pais. Que lembrança tem de seu pai?

Dr. Kleber Leite – As melhores possíveis. Nós éramos muito unidos. Buscava sempre estar próximo a ele, tentando aprender alguma coisa nova. Ele era telegrafista e contraiu dois matrimônios. No primeiro, teve três filhas e um filho. Meu irmão, Ary Leite, é vivo, e mora em São Fidelis. E no segundo, foram quatro homens e a filha caçula, a Maria Estela. Os homens, EU, primogênito, Edvar, Bebeto, e o Cidinho.

Nova Voz ONLINE – Qual a principal atividade profissional dele?

Dr. Kleber Leite - Meu pai foi proprietário de seis jornais. Em Laranjeiras foram quatro periódicos e dois em Itaocara. Em relação a sua personalidade, numa época que os pais costumavam bater nos filhos, jamais nos deu um tapa. Só me lembro de certa vez, que meu irmão Ari, fez uma bagunça no campo de futebol e papai foi lá buscá-lo, pondo-o para casa. Na verdade, quando nos olhava, já sabíamos se havia ou não, alguma coisa errada no comportamento.

Nova Voz ONLINE – Gostava de política?

Dr. Kleber Leite - Era Getulista roxo. Tinha horror aos comunistas. Adorava as modernidades da época, como a eletrônica. Ele e o Manoel Rezende eram os mais interessados. Uma criatura amável, que cursou a universidade da vida. No leito de morte, no dia 26 de outubro, de 1968, me abraçou e disse: “Binho, cumpri minha missão”. Jamais esquecerei. Homem de princípios, falava que não existe honestidade em excesso.

Nova Voz ONLINE – Tem alguma lembrança dele, para vida social de Itaocara?

Dr. Kleber Leite – Várias. Por exemplo, é o autor do hino do Nacional Esporte Clube. Durante o périplo conduzindo seu caixão ao cemitério, os jogadores do Nacional, pararam a partida e o esperavam perfilados, com a braçadeira de luto. Papai é autor também da música “alma cabocla”, que fez muito sucesso então.

A ITAOCARA DE 1940

Nova Voz ONLINE – O que um garoto fazia em Itaocara, para se divertir nos anos de 1940?

Dr. Kleber Leite – Itaocara era uma joia. Tínhamos uma fonte, que fazia 208 combinações luminosas, por minuto. Foi construída pelo Edinho Macedo, de Portela. No Brasil, só havia a nossa e uma no bairro do Grajaú, no Rio de Janeiro. A Piscina Pública, um grande marco da cidade, que lamentavelmente, pelo menos para as pessoas da minha geração, anos depois foi tirada a fórceps da cidade, sem uma devida consulta popular. Foi concebida pelo Faria Souto e construída pelo Aço e pelo Cuíca, dois dos nossos conterrâneos. Quando o rio Paraíba começou a ficar poluído, o Faria Souto furou um poço, há 57 metros de profundidade, puxando a água de onde está agora a Praça da Geografia. Essa água era pura magnésia. A piscina realmente marcou toda geração da minha infância / adolescência. Tínhamos o Ita Cine, o Cinemascope. A Praça da Matemática. O Malba Tahan volta e meia estava em Itaocara.


O Gerente da Rádio 87 FM, Diego Alves e o agora saudoso Presidente da CDL Itaocara, Hélio Sales, no memorável encontro, que resultou no bate papo com Dr. Kleber Leite

Nova Voz ONLINE – Como eram as paqueras de então?

Dr. Kleber LeiteSui generis. Nossa praça era uma pérgula de fícus por toda volta. Então as garotas caminhavam no sentido horário, e nós, os rapazes, no sentido anti-horário. E no meio, íamos nos encontrando, trocando olhares. Lembro também do Dancing, do restaurante do Aristalziro e da banda do Chico Tripa, comandado pela família Falante. O Padre Ananias começou a implicar, achando que atrapalhava a missa. No antigo Coreto de Itaocara, tenho lembrança do meu pai, tocando com Altamiro Carrilho, um dos maiores músicos do mundo. 90% dos que estiverem lendo está matéria, nem de longe podem imaginar, quão linda era Itaocara. Viajei pelo mundo, estive nos Estados Unidos, na Europa, em Cuba, em Porto Rico e na Argentina, sem contar inúmeras cidades do Brasil. Mesmo assim, nunca vi lugar mais belo, do que a Itaocara da minha infância e juventude.

Nova Voz ONLINE – E o senhor sempre foi apaixonado pelo mundo intelectual?

Dr. Kleber Leite – Desde criança. Fui convivendo no mundo do meu pai, com grandes personalidades, como o Presidente Getúlio Vargas e o Governador Amaral Peixoto. Meu pai, além de jornalista, respeitadíssimo em todo o Estado, era ávido leitor e sempre nos estimulou a ampliar nossos conhecimentos.

A Advocacia e o Mundo

Nova Voz ONLINE – Como o senhor terminou se tornando Advogado por formação acadêmica?

Dr. Kleber Leite – Boa pergunta. Aqui vai uma história. Meu sonho era ser Diplomata. Já cursava o secundário no Rio. Certo dia conversava com um professor, quando identifiquei um erro de português, numa placa da Faculdade de Filosofia, que ficava no Castelo (bairro do Rio). Ele chamou então um professor desta instituição, altamente laureado, e lhe disse que eu havia identificado um erro de grafia. Era necessário fazer a correção. Isso me deixou marcado positivamente.

Dr. Kleber, ao lado da filha Kellen, recebendo o Diploma da Acadêmia Fluminense de Letras, com os imortais, Waldenir Bragança e Márcia Peçanha

Nova Voz ONLINE – Como assim?

Dr. Kleber Leite – Passei a ser comentado. Em certo momento, recebi precioso conselho do Embaixador Muniz de Aragão, para que não estudasse no Itamaraty, porque não era loiro, de olhos claros, o que praticamente era pré-requisito. Disse para que ingressasse na Faculdade de Direito. Quando já estivesse no terceiro ano, tentasse a carreira diplomática. Era um caminho mais seguro. Fiz o vestibular, passei e tive o privilégio de conviver com alunos e professores, que depois se tornariam expoentes da minha geração, como Aliomar Baleeiro (Tributarista de máximo renome), Olavo Bilac Pinto (Deputado), Fernando Henrique Cardoso, Carlos Ribeiro (conhecido como Carlos Livreiro, da Livraria São José), José Serra e outros mais.

Nova Voz ONLINE – O senhor foi Presidente do Diretório Acadêmico. Houve alguma manifestação que se lembra com maior relevância?

Dr. Kleber Leite – Uma chamou atenção. O Rio era nossa Capital, e para fazermos uma manifestação política, pintamos um Elefante de cor de rosa e o colocamos em frente à Assembleia Legislativa. O que queríamos era a criação da UEG, que depois veio a se chamar de UERJ. Teve grande repercussão. O Governador Carlos Lacerda, terminou ficando sensibilizado. Viabilizou fundos que possibilitaram a criação da UEG. Fui aluno de Afonso Arinos, Benjamim de Moraes, Maurício de Lacerda, alguns dos maiores brasileiros da história. O Chanceler Ary de Azevedo Franco tinha-me na conta de filho. O único desafeto que criei, foi o Desembargador Oscar Tenório.

Nova Voz ONLINE – Qual motivo?

Kleber Leite - Por causa de uma bobagem. Terminei sentando numa mesa de restaurante, reservada para ele, sem saber. E quando lhe cumprimentei, disse-me alguns impropérios. Um jornalista da Tribuna da Imprensa, o principal jornal do Brasil na época, estava presente e publicou noutro dia na primeira página, em manchete, dizendo que o Desembargador havia sido grosseiro com o Presidente do Diretório Acadêmico. Repercutiu. São coisas que acontecem.

O Contato com o exterior

Nova Voz ONLINE – Como foi sua primeira viagem ao exterior?

Dr. Kleber Leite – Uma aventura. Primeiro, porque os vôos eram cheios de escala, pois os aviões tinham baixa autonomia. Fui a San Juan, depois Cáguas, Havana, New York. Alias, tive em Havana, num período de grande repressão por parte do governo comunista do Fidel Castro, quando fuzilamentos eram realizados. Foi no início da revolução e o clima era péssimo. Terminei indo pra Jamaica e depois pra Porto Rico. O mundo dos anos 1960 efervescia com a Revolução Cultural. Quem viajava, sempre tinha história para contar.

Nova Voz ONLINE – Como foi sua adaptação no exterior?

Dr. Kleber Leite – Nosso grupo era formado por pessoas como Hélio Thornague, Ernesto Guerra da Cal e outros nomes que se tornariam expoentes do Brasil. O clima era bem diferente. Lembro que ventava tanto, que o vôo foi desviado de Nova Iorque para Filadélfia. Com tudo isso, foi um período fantástico. Fui aluno do professor William Grossmann, tradutor das obras do Machado de Assis, para o inglês. Atualmente, há uma cadeira de Membro Correspondente, em seu nome na Academia Brasileira de Letras.

Nova Voz ONLINE – O senhor advogou também para o mundo artístico aqui no Brasil, não é mesmo?

Dr. Kleber Leite – Fui advogado da Cinédia. Conheci personagens da época, como Zé Ketti, Cil Farney, Clara Nunes, e outros artistas. Desenvolvemos bom convívio. Tive um escritório no Rio de Janeiro. Depois mantive associados em Buenos Aires e Córdoba. Durante 16 anos fiquei indo e vindo da Argentina.

O Casamento

Nova Voz ONLINE – Como foi o casamento com a professora Clarice?

Dr. Kleber Leite – É uma história interessante. Já havia sido noivo três vezes, mas não tinha encontrado meu verdadeiro amor. Faltava isso, para que realmente pudesse sentir-me realizado. Num dia, vindo a Itaocara, estava no escritório do José Maria Fernandes, quando avistei aquela bela jovem, super educada, de trejeitos gentis. Senti algo diferente. Fui para casa e falei com minha mãe sobre este encontro. À noite mamãe me chamou para ir ao Pinguelão, restaurante popular de então. Por destino, ou estimulada pela minha mãe, a Clarice estava lá. Tivemos nossa primeira conversa. Isso ocorreu no mês de setembro. Foi tão forte, que no dia 20 de janeiro de 1973, apenas quatro meses depois, já estávamos casados.

Nova Voz ONLINE – E as suas filhas?

Dr. Kleber Leite – Elas são o principal legado da minha vida. Todas estudiosas, amorosas, nunca deram trabalho. A Kellen, mais velha, trabalha na Justiça Federal, em Niterói. Só me chama de paizinho. Casou-se com o André Carneiro Leão, que é do ramo jornalístico, tem uma revista muito conhecida, City Niterói. Excelente pessoa. A Karine é dentista. Por concurso, passou em primeiro lugar e trabalha na Justiça Federal, no Rio de Janeiro. A Keyla, é minha filha mais nova, trabalha na Justiça Estadual do Espírito Santo. Então não tenho preocupação com elas. Felizmente estão encaminhadas. Priorizaram o estudo e hoje colhem os frutos que plantaram.

De Volta a Itaocara 

Nova Voz ONLINE - Nos anos de 1980, o senhor criou o presidiu a Academia Itaocarense de Letras e o BALI – Boletim Acadêmico Letras Itaocarenses. Pode nos falar um pouco da AIL e do BALI?

Dr. Kleber Leite – A Academia, na realidade, foi criada por um decreto, em 1970 pelo Dr. Carlos Moacyr Faria Souto. Anos depois, quando já era Chefe de Gabinete da Prefeitura de Itaocara, o Dr. Milton Bürger e o professor José De Cusatis, me procuraram para instalar nossa Arcádia, que só existia no papel. Então chamamos os professores William Rimes, Paulo César Rimes e o José Bucker. Fomos formando a Academia, escolhendo os patronos, empossando os novos imortais. Inicialmente tivemos uma diretoria pró tempori, com o De Cusatis Presidente, Eu vice e o José Bucker, Secretário. Houve então uma divergência e o De Cusatis renunciou. Eu assumi como Presidente da AIL.

Nova Voz ONLINE – E o BALI?

Dr. Kleber Leite - O BALI foi consequência de duas coisas. Primeiro, durante muitos anos, tive uma coluna no jornal O Centro Norte, do jornalista José Geraldo Cardoso, onde escrevi diversos artigos e ensaios. Depois, havia uma necessidade de publicar o material produzido pela AIL. Então, resolvi criar o BALI.

Nova Voz ONLINE – O Bali terminou sendo reconhecido em todo Brasil e no mundo, conquistando prêmios nos Estados Unidos, na Europa e no Japão.

Dr. Kleber Leite – Exatamente. Isso enriqueceu a cultura de Itaocara, tornando-a conhecida fora das nossas fronteiras, como nunca poderíamos imaginar. Até hoje, recebo correspondência de várias partes do mundo e de outras cidades brasileiras.

Nova Voz ONLINE – O senhor presidiu ainda a Cooperativa de Motoristas do Município. Isso demonstra que sempre gostou de estar ativo em Itaocara. Não é mesmo?

Dr. Kleber Leite – Foi uma época muito boa. Sempre me dispus a ajudar no que for possível. A Cooperativa de Motoristas passava por dificuldades. Eu então pude dar minha colaboração. Durante meus mandatos, organizei as finanças e fiz obras importantes. O resultado agradou aos associados, tanto que fui reeleito diversas vezes.

Nova Voz ONLINE - O que o senhor gostaria de deixar de mensagem para as novas gerações?

Dr. Kleber Leite – Que tenham coragem. Eu nasci em Laranjeiras. No mesmo local, nasceram homens ilustres, como o Dr. Alaor Eduardo Scisínio, o Dr. Álvaro Antonio Pinheiro e os Almirantes Righi e Davi. Isto numa época que realmente existia roça, zona rural. No entanto, superamos obstáculos e conquistamos bem mais do que podíamos sonhar. Então jovem, nunca se permita ficar desanimado, nem pessimista em relação ao futuro. Se quiser, tiver força de vontade, pode conseguir qualquer coisa.

Bate Bola sobre

personalidades de Itaocara

Dr. Alaor Scisinio – Um gigante intelectual. O sucedi na Academia Fluminense de Letras. Ele adorava minha casa. Dizia que ali pegava-se a poesia no ar. Brilhante intelectual, ser humano fora de série e grandioso amigo. Seu falecimento gerou obituários de página inteira, em jornais como O Globo e o Jornal do Brasil.

Dr. Milton Bürger – A maior inteligência que encontrei na Prefeitura. Quando se aposentou, tive o privilégio de sucedê-lo. Não conheci ninguém que entendesse mais de Direito Administrativo do que ele. E generoso. Sempre paciente, me orientou por diversas vezes, quando já não estava mais lá.

José Romar Lessa – No primeiro governo fui seu Chefe de Gabinete. Cumprimos o mandato, observando todas as exigências legais. Numa época que havia coisas erradas nas Prefeituras pelo Brasil, pois não existia essa fiscalização toda, aqui em Itaocara, nós fizemos questão de ter o máximo zelo com o erário. Pessoa simples, mas de grande personalidade. Ninguém mandava nele.

Dr. Robério Ferreira da Silva – Um ser humano sem igual. Nunca votei nele, mas mesmo assim, sempre me tratou como amigo. Isso que acho fantástico. A política é um meio de tanta gente mesquinha, que encontrar alguém como ele, nos dá esperança. Fiquei triste com seu falecimento. Itaocara perdeu um grande homem.

Dr. Carlos Magno Daher – Uma pessoa a qual tenho grande admiração. É meu amigo particular. Homem de inteligência fora do comum. Apaixonado por Itaocara. Tenho grande recordação de sua posse, como membro da Academia Itaocarense de Letras, quando vivemos uma noite inesquecível, tudo regado ao majestoso coquetel oferecido por ele.

Dona Nilza Viégas – Uma escritora de grande relevância para Itaocara, porque em suas duas obras, há diversas menções a fatos históricos. Uma mulher culta, humana e modesta. Foi eleita para a AIL, mas nunca quis tomar posse. Achava que não estaria a altura. Neste ponto, estava errada, pois além de escritora, era artista plástica e foi professora durante vários anos. Ou seja, mais do que qualificada.

Dr. Álvaro Luís Correia da Rocha – Meu amigo. Muitas vezes, nos sábados, nos recebia em sua casa, para conversar sobre diversos assuntos. Homem viajado. Era bom estar junto a ele e lembrar os áureos tempos do Engenho Central Laranjeiras.

Professor José De Cusatis – Esse era meu Guru. Teve morte prematura. Foi à pessoa chave para AIL. Ele influenciou uma geração de itaocarenses, como Milton Bürger, Faria Souto e eu mesmo. A mola mestra da Academia.

Dr. José Alvanir – Apesar da grandiosidade, homem de máxima modéstia. Nunca quis estar em posição de destaque, mesmo merecendo todas as luzes. Gosta de trabalhar nos bastidores, criando a possibilidade para os outros se destacarem. O admiro muito por isso.

Faria Souto – Penso que é o maior gênio já nascido em Itaocara. Uma lástima falarmos tão pouco sobre ele. Os anos passam, mas suas obras continuam sendo as mais importantes. Falava latim e grego. Era apaixonado pela matemática. Quando Prefeito, por vezes, fazia os despachos em versos. Poeta. Ainda falta ao município homenageá-lo a altura.

José Geraldo Cardoso – Lutador e sonhador ao mesmo tempo. Sou grato por ter me concedido o espaço, para escrever as colunas Página 2 e Séries Itaocarenses, em seu jornal, durante muito tempo. Pessoa a qual tenho relevante gratidão.

Waltair Sias Gomes – Homem educado e gentil me apoiou também na feitura do BALI. É outro itaocarense que contribuiu bastante com o município, oriundo lá do Engenho Central Laranjeiras.

Elias Abbud – Compreendeu a importância do BALI para a divulgação da cultura de Itaocara. Durante muito tempo, comprava boa quantidade de selos, e me dava para postar correspondências enviadas ao Brasil e o Mundo. Sou grato a ele por este gesto.

Monsenhor Saraiva – Eu tenho lembranças terríveis dele. Então era conhecido como Duduca, criança endiabrada, que aprontou como só quem viveu naquela época sabe. Ele, junto com o Zé Capeta e outros, viviam a fazer comigo, o que hoje se chama bullying. Minha mãe tinha que me levar e trazer da escola, para não apanhar desta turma. Graças ao Padre Ananias isso tudo mudou, e ele se tornou o Monsenhor Saraiva, que entrou para história com tantas coisas relevantes para o município, inclusive Membro da Academia Itaocarense de Letras.

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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Lucília Maria Rosa de Ornellas: Mãe, Avó e Bisavó, a história de uma Matriarca Itaocarense


Quem a vê sentada na frente de sua casa, na Rua Coronel Pita de Castro, não consegue imaginar a riquíssima trajetória de vida, da senhora Lucília Maria Rosa de Ornellas, que atualmente está com 96 anos. Ela é viúva de um dos maiores itaocarenses de todos os tempos, o empresário e político, Marino Coelho Ornellas. Temos o prazer de contar um pouco da história dessa grande mãe, cujos filhos Neuzy. Nelma, Nélio, Neyde e Nilson, os netos e os bisnetos, são fonte de grande orgulho.

A Saudosa Matriarca da Família Ornellas, Dona Lucíola, comemorando o aniversário com os filhos, Nelma, Neide, Nilson, Nélio e Neuzy (estes dois últimos, já falecidos)

Nova Voz On Line - Quais suas principais lembranças da infância?
Lucília - Nasci em Itaocara, cidade do interior. Minha infância foi normal, como qualquer criança. Brincadeiras de rodas, pique esconde, pique alto, passar anel, reuniões familiares, teatro infantil, eram freqüentes. Nós íamos à casa das colegas para brincar de bonecas, fazer roupas, batizados delas e cozinhados. Hoje, não se vê mais crianças brincando de rodas. As crianças não têm infância. Estudei com a professora Lívia, da alfabetização à terceira série, em aulas particulares. Depois fui estudar no Colégio Saldanha da Gama (Frei Tomás, local hoje da Prefeitura nova), cursando a quarta e quinta séries, com Dona Lucrécia Villas.

Nova Voz On Line – A senhora gostava de estudar?
Lucília - Na quinta série, fui a melhor aluna da classe, tirando 10 com louvor em todas as disciplinas durante o ano todo. A diretora, Dona Romana, diante deste fato, me deu uma bolsa de estudos para fazer o curso normal (a quinta série equivalia, hoje, ao ensino médio completo), no Rio de janeiro. Ela foi pessoalmente à minha casa para dar a notícia, mas minha mãe não permitiu. Fui, então, trabalhar com D. Sinhá Costa, costureira de fama. Costurava vestidos e roupas para as madames do Rio de Janeiro. À noite, costurava para mim e meus irmãos, bordava, fazia casinha de abelhas nas roupas de crianças, e ponto smock, ponto paris nas camisolas das noivas, ponto matiz nas toalhas e lençóis, bainha de laçada e crochê.

Nova Voz On Line – A senhora ficou chateada por não ir estudar no Rio e ter que ficar trabalhando aqui?
Lucília – Claro que não. Minha geração gosta muito de trabalhar. Dando seguimento a minha vida, fui trabalhar na Venda de Tecidos e Retalhos do Sr. Braz de Cusatis, na Praça Coronel Guimarães, onde hoje é a escola de Inglês Wizard. Nas horas vagas, à tardinha, íamos para casa da Dona Cininha Simões, ajudando a fazer flores de papel crepom, para coroa de flores, e aprender fazer bonecas de pano.

Nova Voz On Line - Como era viver em Itaocara em sua adolescência?
Lucília – Era ótimo. Às quartas-feiras e aos domingos, nós, jovens, freqüentávamos a Praça Cel. Guimarães, ouvindo a rádio YC2, no prédio de Dona pepita Machado, onde também funcionava a biblioteca e o Itacine (atualmente o prédio ao lado do Clube União). Os bailes e os carnavais de Itaocara eram realizados no Itacine. Diversão bem inocente. O objetivo era rir e nos sentirmos felizes. Foi uma época fantástica, sem dúvida alguma.

Nova Voz On Line - Como a senhora conheceu o Sr. Marino  Ornellas?
Lucília - Cidade pequena, todos são conhecidos. Marino morava no Caeté (na zona rural), e vinha à cavalo para Itaocara. Eu sabia que ele tinha namorada firme, quase noivo. Mas nós flertávamos. Ele sempre mandava recados, querendo conversar comigo. Num dos bailes no Itacine, ele chegou perto de mim, começamos a conversar e ele me tirou para dançar.

Neyde Ornellas com o pai, Marino Ornellas, um dos mais importantes empreendedores da história do município de Itaocara

Nova Voz On Line – Essa história daria um filme de amor.
Lucília - Ele terminou o namoro firme, e pediu permissão a minha mãe para namorarmos. Eu tinha 18 e ele 19 anos. Namoramos durante três anos. Casamos em 31/07/1940. O meu enxoval de noiva foi feito todo por mim. Eu era muito habilidosa.

Nova Voz On Line - É verdade que havia muita vigilância da família no namoro daquela época?
Lucília - O namoro de antigamente era muito reservado e controlado pelos pais. Havia muito respeito pelas famílias, principalmente em cidades do interior, onde todos se conhecem.

Nova Voz On Line - A função da mulher, então era ser dona de casa e criar os filhos? Pode nos falar um pouco sobre esse momento?
Lucília - Quando nos casamos, fomos morar no Caeté, com meus sogros. Ficamos lá durante sete meses. Grávida da minha primeira filha, Neuzy, nos mudamos para Itaocara, para a Rua Coronel Pitta de Castro (onde hoje é casa do Sr. Olisses França). Na época o Marino trabalhava como açougueiro. Fomos morar então, na Rua Nilo Peçanha. Compramos a Venda Secos e Molhados do Sr. Armindo - meu sogro. Ali, nossa segunda filha, Nelma, nasceu. Marino passou a venda para seu irmão, Manoel Ornellas, e fez Sociedade com o Sr. Resende, numa empresa de Armazém e Máquinas de Arroz, na Ponta da Areia (no local hoje estão o Bazar Cremonez, A Farmácia Droga Lima, Loja A Garotinha e Studio Semiana). Mudamos novamente. Dessa vez para a Rua Cel. Pitta de Castro, 83 (a parte dos fundos do Clube União). Fiquei então grávida do 3º filho, Nélio.

Nova Voz On Line – Nessa época que sua mãe faleceu?
Lucília – Infelizmente sim. Eu e o Marino assumimos os meus sete irmãos: 2 gêmeas de 4 anos e os outros, de 6 anos, 9 anos, 11 anos, 13 anos e 15 anos. Também meu pai de criação. Ao todo, 12 pessoas foram morar em minha casa.

Dona Nelma Ornellas, com suas saudosas mãe, Lucíola e irmã, Neuzy

Nova Voz On Line – O Sr. Marino continuava cuidando dos negócios?
Lucília – Ele desfez a sociedade com o Sr. Resende. Comprou dois caminhões KB6 internacional. Fazia compra e venda de cereais no Rio de Janeiro e vendia no município de Itaocara. Ele viajava muito. Às vezes ficava na estrada 15 dias. Até um mês. Ir ao Rio não era fácil como hoje. Eu ficava tomando conta da casa, que era a função da mulher de antigamente: criar, educar e orientar os filhos. Além de cozinhar, eu costurava para toda família. Não se comprava roupas prontas em lojas. Eram feitas em casa. Lavava, passava, e arrumava tempo para bordar por encomenda, ajudando nas despesas da casa.

Nova Voz On Line – Apesar das dificuldades, foram tempos felizes?
Lucília – Certamente. Meus filhos e meus irmãos, todos foram batizados e fizeram primeira comunhão na Igreja Católica. Nasceram nessa casa mais dois filhos, Nelza e Neyde. Mudamos para a Cel. Pitta de Castro, 228 (onde hoje mora a Neyde). Lá nasceu o Nilson, o filho caçula. Encaminhamos nossos filhos e meus irmãos, estudando no Colégio Itaocara (particular).

Nova Voz On Line – A senhora era típica mãezona de época para todos?
Lucília - Eu dizia: “se não passarem de série, vão ter que repetir”. Eu ameaçava: ‘vocês vão ficar de bengala na mão, mas têm que estudar’. Lembro-me como se fosse hoje. Ajudava meus filhos nas traduções de Inglês, Francês e Latim, quando tinham dificuldades. Nunca tiveram aulas particulares. A função era minha. Muitos anos depois, fomos morar na Fazenda Santa Clara, na zona rural, onde funcionava a fábrica de cachaça.

Nova Voz On Line – Era uma vida muito dura.
Lucília - Muito trabalho. Mas éramos muito felizes. O Marino se tornou um dos mais importantes empresários da história de Itaocara. Bom lembrar o que dizem: “por traz de um grande homem, existe uma grande mulher”. É a pura verdade (risos).

Nelma com a Mãe Luciolá e irmão Nilson Ornellas 

Nova Voz On Line - O Senhor Marino trabalhou bastante. Participou ativamente da vida política do município. Mas a senhora sempre preferiu ficar distante, não é mesmo?
Lucília – Tenho orgulho do meu marido. Marino sempre foi um homem de negócios. Participava, não só na política, como na vida social de Itaocara. Quando possível eu o acompanhava. Minha família tomava parte dos eventos, como carnaval e os bailes. Eu dava apoio total. Na vida política, nunca participei, porque era tímida. Também não tinha tempo, com uma família tão grande para criar e educar. E nunca gostei de política.

Nova Voz On Line – Atualmente os casamentos que duram 10 anos são recordistas. Mas a senhora foi casada com um único homem, durante toda a vida. É um grande desafio manter o casamento por tanto tempo?
Lucília – Penso que não é. Quando o homem e a mulher se casam por amor, tudo é superado. Sou muito agradecida pelo marido que escolhi. Ele foi um ótimo filho, um ótimo irmão, um ótimo cunhado, um ótimo marido e um pai maravilhoso. Sempre muito dedicado à família. Nós construímos uma família com carinho e com muito trabalho, tanto da minha parte quanto da parte dele. Casamento não é brincadeira. Deve ser encarado de forma séria. Assim sempre vai dar certo.

Nova Voz On Line - Depois dos filhos, vieram os netos e os bisnetos. E a senhora continua vivendo feliz, aproveitando os bons momentos, ao lado da família. Pode nos contar um pouco sobre isto?
Lucília – Sou feliz porque cumpri minha missão. Tenho uma família digna, com filhos, netos e bisnetos, com saúde. Todos são pessoas honestas, o que neste país é de grande orgulho. Graças a Deus! A única coisa que sinto, e vou sentir até o último suspiro é saudades do meu marido. Gostaria que o Marino estivesse aqui, desfrutando de tudo ao meu lado.

Nova Voz On Line - A senhora acha que as mulheres são mais felizes hoje, quando podem ter a própria profissão, namorar livremente, enfim, ter uma vida independente?
Lucília - Os tempos mudaram. A mulher de hoje escolhe a profissão que quer. Os namoros são diferentes. Há muita liberdade. Mesmo assim não diria que são mais felizes, nem que a minha geração foi mais feliz. Ser feliz é saber desfrutar o momento de modo pleno. Por isso é tolo comparar. O que posso dizer, com máxima certeza é que fui e sou muito feliz.

Nova Voz On Line - Qual é a receita para chegar a sua idade, lúcida e com saúde?
Lucília - Eu trabalhei muito, mas somente em casa, educando e encaminhando meus filhos. Nunca fumei. Não sinto nada. Não tomo remédios. Não tenho pressão alta. Não sou diabética. Não tenho problemas de coração. Durmo muito bem. Eu sempre li muito. Desde cedo, fui muito estudiosa. Se me perguntarem as capitais dos Estados do Brasil, dos países da América do Sul e de todo Mundo, sou capaz de dizer, na ponta da língua. Tenho 96 anos com muita saúde. Graças a Deus. Minha mente está ótima.

Nova Voz On Line - Do alto de sua experiência de vida, o que diria para as mulheres mais jovens, neste início de Século XXI?
Lucília - Aconselharia as jovens a estudarem e escolherem sua profissão. Só depois pensar em casamento. Hoje não estuda quem não quer. Há muita facilidade e liberdade para escolher o que quer ser na vida. Então aproveite o seu momento.

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