A Serventuária da Justiça, chefe do Cartório de Itaocara, Dr.ª Elaine Freixo Seixas, fala sobe os avanços femininos que transformam as relações sociais e familiares, ampliando autonomia, liderança e equilíbrio dentro dos lares. Porém, alerta para que as mulheres reflitam que não devem carregar todas as responsabilidades sozinhas.
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| Dr.ª Elaine Freixo Seixas é uma mulher que faz a diferença em seu trabalho na Justiça de Itaocara e na ONG Noroeste Mais Verde |
Nova Voz ONLINE – Ao longo da sua vida, quais foram as principais mudanças que você percebeu nas relações sociais e familiares envolvendo as mulheres?
Dr.ª Elaine Freixo Seixas - Observei mudanças significativas nas relações sociais e familiares envolvendo as mulheres. Houve um avanço importante no reconhecimento da capacidade e da autonomia feminina, especialmente no acesso à educação, ao mercado de trabalho e aos espaços de liderança. Se antes as mulheres tinham sua atuação mais restrita ao ambiente doméstico, hoje elas ocupam funções estratégicas na administração pública, na política, no terceiro setor e em diversas áreas profissionais. Isso naturalmente também impactou as relações familiares, tornando-as mais equilibradas, com maior participação da mulher nas decisões e maior compartilhamento de responsabilidades.
Nova Voz ONLINE - São muitos os desafios, não é mesmo?
Dr.ª Elaine Freixo Seixas - Como servidora pública, mãe e participante ativa em iniciativas sociais, percebo que as mulheres passaram a ter uma voz mais forte na construção da sociedade. Ainda existem desafios, mas as mudanças que presenciei ao longo das décadas mostram um caminho de maior igualdade, respeito e reconhecimento do papel feminino em todas as esferas da vida.
Nova Voz ONLINE – Que papel o aumento da escolaridade desempenhou na melhoria da posição social das mulheres na sociedade?
Dr.ª Elaine Freixo Seixas - O aumento da escolaridade é um "divisor de águas" que permitiu às mulheres ocuparem espaços que antes eram restritos a nós, garantindo maior independência financeira e poder de decisão sobre nossas próprias vidas. Hoje, já somos maioria no ensino superior, o que impulsiona a economia e reflete diretamente na melhoria da saúde e educação das próximas gerações. Mas um diploma não resolve tudo sozinho: mesmo mais qualificadas, as mulheres ainda enfrentam o desafio da dupla jornada e de salários menores. O avanço educacional é a base da nossa evolução, mas a sociedade ainda precisa ajustar toda uma estrutura para que esse esforço se transforme em igualdade real de oportunidades.
Nova Voz ONLINE - Você concorda que essas transformações também levaram os homens a mudar, assumindo maior participação na vida familiar e até mesmo dedicando mais atenção ao autocuidado – buscando ficar mais desejável para suas companheiras?
Dr.ª Elaine Freixo Seixas - Sim, é visível que as novas gerações de pais, principalmente, estão muito mais presentes e comprometidas com a divisão de tarefas do que as anteriores, impulsionadas por um debate cada vez mais forte sobre a importância do trabalho de cuidado. Avanços como a ampliação da licença-maternidade para 20 dias, votada no Congresso recentemente, refletem esse desejo de maior participação na vida familiar desde o início. No entanto, na prática, as mulheres ainda carregam a maior parte da sobrecarga doméstica e mental. Mas não podemos esquecer que, enquanto celebramos essa evolução de parte dos homens adultos, precisamos ligar o alerta para a geração de adolescentes: o crescimento de ambientes digitais que incentivam o ódio gratuito às mulheres mostra que o progresso não é linear e exige vigilância constante para não retrocedermos.
Nova Voz ONLINE - Apesar de tantas conquistas, ainda nos deparamos com notícias de feminicídio, graças à persistência de conceitos machistas enraizados na cultura social. Em sua opinião, qual é o papel da família — na educação de meninos e meninas — para a construção de uma sociedade mais harmoniosa e respeitosa?
Dr.ª Elaine Freixo Seixas - A família é onde a base do respeito se forma, e é seu papel demonstrar, através do exemplo, que as tarefas de casa, que cuidar e expressar sentimentos são coisas de meninos e meninas. Educar para uma sociedade menos violenta passa por ensinar aos meninos que a masculinidade não deve ser provada através do domínio, e às meninas que o seu valor não depende da aprovação alheia. Claro que avanços jurídicos e institucionais são essenciais, mas o combate ao feminicídio começa no dia a dia, quando a família substitui repetições machistas enraizadas por exemplos reais de parceria e empatia. Uma criação que valoriza o cuidado e a autonomia de meninos e meninas é uma ferramenta poderosa para romper esse ciclo de violência e construir um futuro de respeito mútuo.
Nova Voz ONLINE - Que mensagem você gostaria de deixar para as mulheres neste mês de março, especialmente dedicado a elas?
Dr.ª Elaine Freixo Seixas - Minha mensagem é para que as mulheres se lembrem de que devem se orgulhar de suas trajetórias até aqui, mas que nunca nos esqueçamos que não precisamos (nem devemos) carregar o mundo sozinhas. Que o nosso desenvolvimento não seja sinônimo de exaustão, mas de liberdade para escolhermos nossos caminhos com segurança e respeito. Desejo que continuemos sendo protagonistas da nossa história, mas que a sociedade também faça a parte dela para que o nosso esforço seja, finalmente, acompanhado de descanso, reconhecimento e igualdade real.























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